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Tito Rosemberg
agosto 1, 1998

Tito Rosemberg: uma aula de vida através de expedições

Tito RosembergJornalista, fotógrafo, documentarista e guia ecológico, Tito Rosemberg, que já conheceu 66 países, mostra que seu espirito de aventura o levou a experiências off-road da grandeza do Camel Trophy, como exemplo. Confira nesta primeira parte da entrevista um pouco da sabedoria de vida de Tito Rosemberg, que fala sobre culturas, off-road, meio ambiente e muito mais…

Planeta Off-Road: Em todas suas viagens pelo mundo, o que mais marcou?

Tito Rosemberg: A percepção de que nós, os quase seis bilhões de habitantes do planeta Terra, no fundo, somos todos iguais. Tuaregs e nordestinos, Kaiapó e esquimó, turcos e mineiros. Jipeiros e artistas plásticos. Percebi no mundo inteiro a necessidade dos seres humanos de desenvolver suas individualidades, mas sempre batendo de frente com o desejo da “sociedade”, de que nos enquadremos dentro dos parâmetros muito restritos do que se convencionou chamar de “normalidade”. As pessoas mais criativas de todas as culturas, são geralmente as mais discriminadas. O aventureiro, que geralmente segue os caminhos menos viajados, tem que vencer não só os desafios que o mundo externo – florestas, desertos, montanhas – lhe apresentam, mas também superar os dogmas internos, sedimentados por milênios de preconceitos, que nos levam a viver passivamente.

Planeta Off-Road: O que mais lhe chama a atenção quando se fala em diferenças culturais nos diversos países que conheceu?

Tito Rosemberg

Tito Rosemberg: A constatação de que não existe o que se chama de “verdade”. O que num lugar é proibido, em outro é estimulado. O que é uma “vergonha” num lugar, pode ser um ato “respeitável” noutro lugar. O que é normal aqui, é absolutamente anormal noutra cultura. Entretanto, com o surgimento da televisão e da antena parabólica, a comunicação uniu de maneira definitiva todas as culturas do planeta. Os tuaregs no meio do deserto do Sahara podem estar assistindo em tempo real ao jogo do FLA X FLU, no Maracanã. Os massacres na Argélia chegam em nossas casas, através das telinhas, quase que instantaneamente ao incidente. Os grandes vazamentos de petróleo, bem como todas as destruições ambientais, estão sendo levados ao conhecimento de bilhões de pessoas. E as reações são também planetárias. Os brasileiros não podem mais queimar a Amazônia sob o risco de serem censurados pelos olhos chocados do mundo inteiro, e assim por diante.

Planeta Off-Road: E sobre as diferenças no off-road? Como é o esporte nestes países

Tito Rosemberg

Tito Rosemberg: Nos países onde a renda é menos concentrada, e o dinheiro é distribuído por uma parcela maior da sociedade, há obviamente mais práticas esportivas motorizadas. O 4X4 é uma atividade quase que exclusiva da classe média para cima, seja no Brasil ou no Japão. A grande diferença é que enquanto no Brasil somos uma classe média de três ou quatro indivíduos, nos Estados Unidos há milhões de pessoas na tal de classe média, e por isto o 4X4 está muito mais difundido. Numa escala menor em relação aos USA, a Europa também está sendo palco de um grande desenvolvimento no uso de veículos tracionados, não somente na prática de esportes, mas também nas viagens de longo curso e nas aventuras individuais de final de semana. Em todos os cantos do mundo, o ser humano precisa de aventura, e, já que a vida sedentária vai contra seus sonhos de mais emoção, o 4X4 tem se tornado uma excelente válvula de escape para um número crescente de pessoas sedentárias em seu cotidiano. Nota-se nos países desenvolvidos (e o Brasil não está neste grupo), uma preocupação muito grande dos jipeiros e motociclistas off-road, de, não somente reduzir o impacto ambiental de suas aventuras, mas também de aliar-se aos grupos ecológicos em campanhas de conscientização ambiental. Nos últimos anos, o crescimento da preocupação com o meio ambiente foi muito maior do que o número de novos jipeiros, fazendo crescer uma visão, parcialmente correta, do 4X4 como uma atividade predatória. Os ecologistas de uma forma geral, e no mundo inteiro, consideram os offroadistas como vândalos poluidores. Por esta razão, há por todos os cantos do mundo, e cada vez mais organizado, um acirrado movimento anti-4X4. Neste confronto, cabe aos jipeiros desarmar esta bomba relógio, aceitando os ambientalistas como parceiros na preservação da natureza. Para que haja esta aceitação, cabe aos amantes do 4X4, familiarizarem-se com as regras da prática sustentável de esportes na natureza, e desenvolver atividades que venham a recompor os ecossistemas que porventura já estejam depredados, seja pelos jipeiros ou por outros agentes. Mesmo que a culpa não seja nossa, cabe a nós, que podemos chegar com nossos veículos onde o poder público raramente chega, de nos preocuparmos com a correção dos danos ambientais, unindo o agradável ao útil.

Planeta Off-Road: Qual é o fato que torna uma expedição de jipe inesquecível?

Tito Rosemberg

Tito Rosemberg: Toda expedição é inesquecível, assim como os mestres de quem gostávamos quando crianças. De jipe ou de veleiro, de esqui ou bicicleta e até à pé, uma viagem, por mais simples que seja, é como um curso de pós-graduação em viver. O jipe serve para quem está com pressa e quer levar um monte de tralha, sejam câmeras, pranchas ou panela de pressão. À pé ou de bicicleta, você vê, cheira e sente o verdadeiro sabor do local visitado. Num veículo, o distanciamento entre o viajante e a natureza e cultura local é muito maior, mas pode ser compensado por um ritmo lento na expedição e maior tempo dedicado ao convívio com as populações tradicionais. Muita gente viaja para marcar mais um país no passaporte, como os pistoleiros faziam no punho de seus revólveres depois de matar mais uma vítima. Se viajar por si só fosse um fator de crescimento filosófico e espiritual, cada avião da varig que chegasse de fora traria de volta centenas de pessoas iluminadas, o que sabemos não é verdade. Para que uma viagem seja realmente proveitosa, há que se estabelecer um vínculo forte entre o viajante e a cultura local, os elementos naturais e até as características geográficas por onde passamos. Do contrário, poderemos estar somente trocando o documentário da televisão pelo pára-brisas do veículo, uma experiência passiva, um olhar raso.

Planeta Off-Road: O que é atravessar um deserto?

Tito Rosemberg

Tito Rosemberg: Através dos séculos, muita gente boa tem ido procurar o autoconhecimento nos desertos. Entre eles, Buda, Jesus Cristo e Moisés. Por sua característica de quase total nudez vegetal, o deserto é uma experiência limpa, nítida, onde nossas mentes podem dedicar-se à contemplação sem ser poluída por excessivos impulsos externos. O ar limpo, silencioso e seco dos desertos permitem ao viajante, à qualquer momento do dia, poder enxergar longe, tomar consciência de sua vastidão, e da nossa pequenez diante das forças da natureza, ali explicitadas sem camuflagem alguma. O deserto é uma sensação que deveria ser experimentada por mais gente, pois apesar de sua aparente simplicidade, a convivência com ele nos faz perceber as sutilezas da natureza, das pedras, da areia e dos ventos, e de nossas almas diante de uma poderosa, porém serena, vivência. Quem tem medo do deserto deve também ter medo de ver-se por dentro. Além do mais é uma ótima forma de fazer-nos reconhecer o espetáculo que é uma floresta ou um jardim. Vivemos no paraíso, apesar de poucos perceberem.

“Uma viagem é como um curso de pós-graduação em viver”. Com essa filosofia, Tito Rosemberg já conheceu 66 países de 5 continentes, montando um acervo com 40 mil slides, 10 mil fotos e 200 horas de vídeo..

Planeta Off-Road: Como foi a aventura do Camel Trophy?

Tito Rosemberg: Uma loucura! Eu consegui participar pois estava mais a fim de me divertir do que de competir. Por natureza, tenho um espírito pouco competitivo, e a adrenalina que aflora numa hora destas não me faz confortável. Por isto, há décadas que não participo de nenhum tipo de disputa: não faço ralís, não jogo cartas, não jogo nem futebol nem outro esporte que envolva na vitória de um e na derrota de outro. É uma situação peculiar: se perco, fico triste por perder, se ganho, fico triste pois fiz alguém sentir-se derrotado. Daí, que prefiro optar por um comportamento talvez excêntrico, mas que me permite viver menos atordoado. Esta é a principal razão, de depois de muitas décadas pilotando 4×4 e surfando pelos cinco continentes, nunca ter participado de ralís, enduros nem campeonatos de surf, e que às vezes dificulta minha participação em eventos 4×4. Fui para o Camel Trophy sabendo de antemão que já havia ganhado o melhor prêmio: poder participar de uma aventura alucinante em Bornéu, na Indonésia, mesmo estando completamente sem grana naquela época. Durante o Camel Trophy, cheguei a ser criticado por um jornalista brasileiro presente ao evento, pois “não estaria tentando trazer o caneco para o Brasil”, quando na verdade o que eu queria era poder participar desta fantástica aventura que é “viver o Camel Trophy”. Nosso (Carlos Probst e eu) Land Rover foi o primeiro na história do Camel, a levar a bordo um toca-fitas, onde roncavam Jimmy Cliff, Gal Costa e Eric Clapton. À noite, quando acampávamos, era em torno de nosso carro que a festa de congraçamento entre aventureiros de diferentes nacionalidades, rolava. Enquanto os outros “competidores” recuperavam suas energias para as disputas do dia seguinte, nós aproveitávamos para dividir experiências com os outros pilotos, os mecânicos da Land Rover e os membros da organização do evento, cada um uma figura marcante e com muitas histórias para contar. No final, quando os participantes votaram no primeiro Troféu Espirito de Equipe da história do Camel Trophy, Carlos e eu ganhamos porque fomos para nos divertir e não para ganhar. Meu barato é viajar e conhecer outras culturas e tradições, e os veículos tracionados são perfeitos para isso.

Planeta Off-Road: E o que significou o Troféu Espirito de Equipe?

Tito Rosemberg

Tito Rosemberg: Significou o reconhecimento dos nossos companheiros de aventura, de que a tartaruga e a lebre sempre acabam chegando junto, e de que na vida não há atalhos. Com o pouco treinamento que pudemos ter aqui no Brasil antes da viagem, e com o excelente preparo que as equipes estrangeiras tiveram, durante vários meses antes da prova, nossas chances de ganhar o prêmio por resultados eram muito pequenas. Daí que nós nos preparamos mesmo era para fazer muitos amigos, o que realmente aconteceu. Os dois outros brasileiros que competiam em outro Land Rover, foram para ganhar, e além de não conseguirem, não fizeram amigos e no final já nem se falavam um com o outro. Ao contrário deles, Carlos Probst, que conheci na seletivas do Camel e que também preferia o prazer antes da vitória, tornou-se um dos meus melhores amigos, como somos até hoje.

Planeta Off-Road: De todos os lugares que visitou, qual foi o mais bonito?

Tito Rosemberg: Sem dúvida nenhuma o Sahara. O Arquipélago das Anavilhanas, no Rio Negro, o Pantanal brasileiro, a Califórnia e as ilhas gregas são difíceis de se comparar mas são lugares inexplicavelmente magnéticos e de uma beleza cativante. O estado do Utah, nos USA, perto dos parques nacionais de Bryce Canyon, Zion, Arches e Canyonlands, também é de arrasar, principalmente no sul. Búzios, onde moro parte do ano, também já foi um paraíso, mas a especulação imobiliária a está transformando num favelão. Se a prefeitura local não reservar as poucas áreas virgens para parques e outras unidades de conservação, já já vai virar Camboriú ou Guarujá.

Planeta Off-Road: Alguma história interessante, curiosa e bizzara ?

Tito Rosemberg

Tito Rosemberg: Interessante, curioso e bizarro mesmo é o comportamento dos funcionários das embaixadas e consulados brasileiros no exterior. Arrogantes e antipáticos por definição, apesar das poucas mas honrosas exceções, os funcionários dos consulados acham que estão acima do bem e do mal quando tratam com os brasileiros fora do país. Ao precisar de qualquer serviço num destes locais, o cidadão brasileiro e mesmo estrangeiro é tratado como se fosse um sacoleiro em apuros com as leis locais, ou um traficante em férias ou um trabalhador ilegal. São tantas e tão diversas as minhas experiências envergonhantes nos consulados e embaixadas, que diversas vezes pensei em mudar de nacionalidade só para poder me sentir respeitado. Creio que 99% das vezes em que precisei de alguma coisa numa repartição diplomática brasileira no exterior, não tive sucesso. Acho o comportamento dos diplomatas brasileiros interessante, curioso e certamente bizarro.

Planeta Off-Road: Melhor momento da sua vida?

Tito Rosemberg: O hoje! Não sei o que me passa, mas hoje, quando chego aos 51 anos de idade, vejo minha vida passada e atual como muito boa, e melhorando. Não sou religioso, mas espiritualizado, respeitando as mais de 100 religiões que encontrei pelos quatro cantos do planeta. E como a espiritualidade é a única garantia de felicidade plena, acho que a cada dia fico mais tranqüilo e integrado com minha lenda pessoal. Isso não quer dizer que durmo sobre um colchão de pétalas de rosas, pois toda rosa vem de uma roseira cheia de espinhos. TitoAcho que os espinhos da vida são as experiências mal vividas, e isso geralmente acontece quando nós não estamos sintonizados com aquilo que realmente queremos fazer. Quanto menos nossa personalidade for um roteiro de filme, mais felizes seremos. Com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, persigo os meus sonhos como se fossem nada mais do que um aperitivo do que vai vir pela frente. Sei que quando durmo, se sonhar com um fusquinha 72 acabado ou com um Land Rover zerinho, ao acordar, o custo terá sido o mesmo, e por isto sempre sonho com coisas boas, lugares agradáveis e experiências enriquecedoras. Mesmo quando no meio da maior confusão profissional, desilusão amorosa, dureza total ou impasse filosófico, sempre mantenho a fé de que, imbuído de boas intenções, tentando ser melhor e servindo aos outros, conseguirei chegar ao estado da plena satisfação.

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