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Islândia de Jimny
julho 9, 2021

Uma aventura de Jimny pela Islândia, uma ilha com vulcões adormecidos e geleiras imponentes

‘A Song of Ice and Fire’ é o nome oficial do Game of Thrones, mas encaixa como uma luva para essa remota ilha no Atlântico Norte. Vulcões adormecidos, geleiras imponentes, rios fumacentos, planícies desérticas, lagos bucólicos, pouca gente e muitas ovelhas… Essa é a Islândia, onde a Terra exibe seus músculos em suas formas mais intensas. É a terra de um povo austero, mas que produz gente louca como Björk e Sigur Rós. É a terra onde se fala hoje um idioma derivado de um dialeto norueguês do séc. XII, que soa como alguém gritando e correndo com um machado em sua direção.

Durante minha pesquisa acabei descobrindo um vale de florestas chamado Þórsmörk (lê-se Tórsmôrk) e achei que passar uns três dias fazendo trilhas seria uma ótima – só que pra chegar até lá só indo de ônibus off-road ou por sua conta e risco num 4×4. A pergunta então foi: por que não?

No geral, a famosa Ring Road que circula o país é asfaltada, e você consegue visitar a maior parte das principais atrações turísticas com qualquer tipo de carro. Mas por conta da abundância de desvios da rota principal com oportunidades de descobrir lugares que são parcial ou completamente (no caso das F-roads) inacessíveis, fechei no conceito de 4×4,

Islândia de Jimny

Depois de muito pesquisar, encontrei uma locadora local com preço bom e umas boas reviews, então acabei optando por um Suzuki Jimny, por conta de três fatores: custo diário; fator “barraca” e consumo/potência. O primeiro, com seguros básicos, sairia por EUR 55/dia, porém, visto que a viagem não seria um passeio no parque, eu precisei pegar o pacote completo de seguros – o que elevou o custo diário para cerca de EUR 90/dia. O seguro incluía: franquia reduzida (estava cheio de gelo e sou amador em off-road), contra pedras (não que você vá cruzar com muita gente, mas quando cruza provavelmente vão rolar umas pedras em sua direção), contra roubo e o principal, contra cinzas e areia vulcânica – a Islândia tem vulcões e ventania por todos os lados, e a frequência das duas coisas juntas é relativamente alta no sul da ilha. Se você tiver o azar de ser pego por uma tempestade de cinzas vulcânicas, duas coisas podem acontecer: se for uma ventania gelada, as cinzas abrasivas vão acabar com a pintura do carro, mas se o negócio vier morno… pode até deformar certos componentes plásticos! Lendo na internet encontrei pessoas reclamando de prejuízos de até 6.000 euros!

Islândia de Jimny

O fator “barraca“ surgiu quando descobri que hospedagem em hostel era mais cara do que eu gostaria de pagar. Pensei em camping, mas minha barraca ficou no Brasil e eu não queria comprar uma nova. Então por que não dormir no próprio jipe? A solução foi encontrada num fórum de jipeiros na Tanzânia, que colocavam o banco do passageiro totalmente para frente, retiravam o encosto da cabeça, o que permitia se “esticar”.

 

E por fim, o motor era o mesmo 1.3 que equipa a versão brasileira, com 85cv, que não decepciona nem na estrada e nem no off-road. No final dos 3.800 km, fiz quase 14 km/l com gasolina normal (padrão islandês é 95 octanas). Desse total, uns 20% foram no 4×4. Ajudou muito o fato do limite de velocidade ser 90 km/h no asfalto, e também, muitas vezes não foi possível andar a mais de 50 km/h (seja pela buraqueira, trechos perigosos ou completa ausência de guard rails em alguns despenhadeiros).

Todos os voos chegam por Keflavik, que é o aeroporto que serve a capital Reykjavik, no sudoeste da ilha, com 103mil km quadrados (metade do Paraná). Dos 320 mil islandeses, quase 250 mil moram na capital. Já deu pra sacar o sossego que ia ser daqui pra frente. No aeroporto, já peguei o Jimny na locadora e me municiaram de mapas, informações e 175321 números de emergência.

Depois de dormir num hostel, abastecer o carro com mantimentos, era hora de pegar o volante… Na medida em que você vai se afastando a leste, vai percebendo o quão “vazia” é a Islândia… Não falo apenas de gente e civilização, mas também de árvores e animais.

Islândia de Jimny

Depois de quase 200 km de estrada lisinha, pego meu primeiro desvio pra conhecer o ponto mais ao sul da ilha. Nesse ponto o trecho estava em obras e eu peguei uma trilhazinha paralela à estrada pra sentir qual era a sensação do off-road. Em 20 minutos cheguei ao Dyrhólaey e suas belas praias de cinzas vulcânicas ao redor.

Após um sanduba, fui para o leste de novo, deparando a cada 30 minutos com um cenário e clima diferentes. Apesar de tudo ser muito bonito, dá um aperto no coração diante da solidão. Não se vê gente, não se vê carros. Até existem algumas casas, mas sem ninguém nelas. Começa a se sentir um pedacinho de nada desbravando a selvagem e primitiva natureza islandesa.

Quilômetros mais a frente, mais um espetáculo da natureza. Era a primeira vez que eu avistava Mordor. Digo, um Sandur, que são essas planícies enormes e desérticas, formadas pela passagem de glaciares durante milênios. O fato da estrada se juntar com a planície propicia bastante diversão, garanto!

Algumas horas após o final do Sandur, encontrei a cereja do bolo do sul da Islândia: o magnífico Jökullsárlón, uma lagoa onde parte do Glaciar de Vatnajökull (o maior da Europa) encontra o mar. O glaciar se desmonta em milhares de icebergs na lagoa, que se afunilam num canal que acaba no oceano Atlântico. É algo indescritível. Na maré alta os icebergs são carregados pra fora da lagoa e milhares encalham na saída da maré baixa.

Islândia de Jimny

Margeando o mesmo glaciar, a oeste tem o parque de Skaftafell, que é uma das poucas regiões ainda florestadas na Islândia. Um mini trekking mata adentro leva a Svartivoss, a cachoeira mais épica que eu já vi.

O dia seguinte prometia: começaria a travessia de 40 km off-road até chegar ao último rio antes do vale de Þórsmörk, que eu faria em 2-3 dias de trilha entre os glaciares impronunciáveis de Myrdalsjökull e Eyfjafjallajoküll (vulcão que explodiu em 2010 e causou o maior caos aéreo no hemisfério norte). O tempo estava horroroso. Vinha chovendo incessantemente na região há quase uma semana e o nível das águas, obviamente, tornaria a travessia dos sete córregos mais desafiadora.

Com cinco quilômetros, a primeira surpresa: um córrego que não constava entre os sete ‘oficiais’. Analisei de perto as condições, fui com calma e tive sucesso! Aí veio o segundo, o terceiro, o quarto, o sétimo, o oitavo córrego. A cada vez ia ficando pior, com areia e lama aparente em alguns lugares. Até que no nono rio encontrei uma Grand Cherokee atolada, que aguardava pelo socorro e me informou que o caminho adiante estava ainda pior.

 



Ponderei minha impotência diante de tal demonstração da força da natureza, minha inexperiência, o fato de eu estar sozinho, o carro que eu tinha e o tempo e dinheiro que eu tinha investido até aqui. Acabei por aceitar a derrota e decidi dar a volta por toda a Islândia, já que acabava de ganhar praticamente três dias do roteiro original.

Rumo a leste, passei de novo pelos Sandur, Skaftafell e Jokulsarlon, mas pouco depois de Höfn (onde dormi na primeira noite) peguei um trecho off-road para conhecer as ruínas de Stekkur, onde se estabeleceram os primeiros colonizadores vikings no sul do país.

Após contornar quilômetros de fiordes ao longo da costa, era hora de finalmente entrar, morro acima, rumo ao centro da Islândia. Lá em cima é uma imensidão ainda mais vazia.  A solitude bate ao som de Sigur Rós e é um bom trecho para se filosofar sobre a vida.

Islândia de Jimny

Meu GPS maroto me mandou sair da Ring Road e pegar uma F-road (a tal das estradas que só rola 4×4). Depois de 20 minutos montanha acima, a estrada começou a ficar parcialmente coberta de neve e gelo. Achei esquisito, mas estava de jipe, então, vamos lá. Na próxima hora andei um trecho de 25 km, onde se alternava entre neve e estrada. Às vezes, eu realmente não sabia onde a estrada continuava. Como o tempo estava bom e eu tinha sinal de celular continuei. Para minha surpresa, ao voltar para a rodovia principal, vi que a estrada por onde eu passei estava bloqueada devido ao degelo. Algum infeliz bloqueou apenas um lado da estrada!

Toquei o barco para o norte e passei por perto do ponto mais ao norte da Islândia (um farol impronunciável chamado Hraunhafnartangi), que ficava a 6 km do circulo polar ártico. Desci então quase 300 km até uma região famosa do Lago Myvatn. Esse lago fica numa região vulcânica, e chega a ser bonito, não fossem os milhões de mosquitos na região.

No final do dia, rumei para a metrópole do norte islandês: a bela Akureyri e a muvuca assustadora de seus 17.000 habitantes. Aqui eu confesso que realmente estranhei ver tanta gente junta num só lugar. É curioso como a gente acaba se adaptando relativamente rápido às novas circunstâncias, depois da deprê de solidão no começo, você se anima com a conexão que cria com a natureza ao seu redor, aí volta meio selvagem para a civilização.

Islândia de Jimny

O dia seguinte amanheceu espetacularmente lindo, mas seria muito longo. Eu dirigiria 550 km até o ponto mais ocidental da Europa, que são os Westfjords islandeses, mais precisamente, a península de Latrabjárg. Logo no inicio, o trecho da península Tröllskagi me propiciou um dos cenários mais lindos que eu já vi, sendo justamente a foto de abertura dessa reportagem.

O resto acabou sendo uma tortura: foram quase nove horas de estradas péssimas ou em obras, montanha acima e abaixo, sem acostamento, sem guard rail, e com tempo feio… Era meia noite quando estava no meu quarto e descobri que só conseguiria ver os simpáticos puffins se fosse naquela hora no penhasco. Fui ao penhasco exausto e congelando, mas foi muito legal vê-los de perto, e não apenas um ou dois, mas de milhares!

Dia seguinte seria o mesmo inferno de estrada, pois a balsa que serviria de atalho não funcionava no dia. Seriam mais 470 km, sendo parte deles na mesma estrada maldita do dia anterior. A compensação veio no final do dia, quando passei pela bela região do Thingvellir e jantei um épico steak de baleia.

O final da viagem se aproximava e, no retorno ao sul, fui ver os gêiseres em ação. Uma pena que o maior deles, o Geysir (sim, a palavra gêiser vem desse aqui em específico) que atinge quase 80 metros quando explode, esta dormindo há anos e só borbulha. Pelo menos ao lado dele, temos o Strokkur, que estoura regularmente de 10 em 10 minutos.

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Já era o último dia e eu tinha que pegar o voo à meia noite em Keflavik. Mas, antes disso, passei num lugar chamado Blue Lagoon. Lá você pode relaxar tomando uma cerveja nas fontes termais a 38 graus. Recomendo e muito!

A Islândia é um lugar especial e único. É o paradoxo de dirigir em um lugar asfaltado, mas se sentir na Pangéia, prestes a topar com um dinossauro ou mamute (tinha mamute na época da Pangéia?). É a sensação de se sentir um coadjuvante menor diante da magnitude da natureza. É o lugar mais vazio do planeta onde o celular sempre pega. É caro, longe e solitário – não é uma viagem que eu recomendo para iniciantes – mas para quem já viajou bastante, tem o olho aguçado para detalhes e quer uma vibe completamente distinta.

O roteiro acabou sendo mudado brutalmente no meio, mas fico feliz que isso tenha acontecido, porque pude ver muitas coisas e desfrutar do meu parceiro Jimny mais intensamente. Voltei com mais experiência de vida, de viagem, de off-road e melhor.

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