Há perigo na estrada!
por Alvaro
Melo
Uma velha música do repertório da saudosa
Ellis Regina (Como nossos pais) dizia a frase acima que
acabou marcando minha mente de forma indelével. Foi pensando
nela que comecei a esboçar este texto. Na outra ponta
do meu pensamento uma frase de um dos meus gurus do Off-Road:
"no fora de estrada é mais importante a velocidade mínima
do que a máxima."
Verdade? Claro que sim! Ou ninguém nunca se viu diante
de uma descida escorregadia e perigosa, onde frear é
arriscadíssimo e não alternativa de trajeto? O
que vale nessa hora senão uma forte redução
para que possamos deixar o nosso 4x4 descer controlando
a direção e até, se possível, usando
o acelerador de leve? Tirando os casos extremos
de uso do guincho, não vejo melhor técnica para
tais descidas que essa.
No entanto, na prática não é o que vemos
acontecer. Há uma preocupação generalizada
em melhorar a performance de velhos guerreiros como os CJ e
seus parentes (Rurais e F-75) e de outros nem tão velhos
como os Nivas e Samurais. Um bom pneu para a lama, um guincho,
bloqueio de diferencial são equipamentos bem-vindos e
tornam-se auxiliares preciosos no enfrentamento de dificuldades,
desde que não haja exageros em sua escolha.
Mas para a maioria isso é pouco. Querem mais motor, mais
altura, mais suspensão... No afã de poder calçar
pneus cada vez maiores em seus jipes o pessoal recorre a expedientes
diversos que vão desde elevar a carroceria por meio de
calços como outras mais arriscadas como jumelos elevados,
arqueamento excessivo dos feixes de molas e o SPOA que consiste
em passar os eixos para baixo dos feixes. No item motor, nunca
há uma troca que contemple a equivalência e assim,
vemos velhos jipes equipados com motores GM 4.1, alguns tirados
de veículos mais recentes e dotados de injeção
eletrônica e outros avanços. O motor do velho jeep
que rendia tranqüilos 90 hp e modestos 90 a 100 km/h de
velocidade máxima, passam a dispor de cento e muitos
cavalos, torque abundante e capacidade para andar a 140/150
km/h. E os freios? Foram redimensionados? A suspensão
levantada produz estabilidade suficiente?
Não vou me estender pois acho que já fui compreendido.
Ter um bom jipe, dispor de um motor confiável e de um
conjunto de suspensão e freios adequados é, além
de sonho, uma necessidade. Os veículos mais modernos
de certa forma já se adequam a essas necessidades mas
seus preços são, para uma grande maioria, impraticáveis.
Mas vamos botar a bola no chão... Se não podemos
ter uma das maravilhas da moderna tecnologia, vamos buscar a
eficiência sem exageros, pois não adianta termos
um jipe que é capaz de dar 160 km/h ou mais de máxima
se ele não tem estabilidade, freios e aerodinâmica
para tanto. Mesmo que o motor empurre, não há
aerodinâmica - o formato de uma escrivaninha gigante não
favorece altas velocidades nas quais cada curva é uma
aventura e cada manobra um susto. Vai que de repente o anjo
da guarda descuida e aí? A probabilidade de acidentes
aumenta geometricamente e além de você, sua família
ou seus amigos outras pessoas podem vir a se ferir ou perder
a vida, já que o acréscimo dessas tralhas todas
aumenta em muito o poder de impacto de um jipe que já
não é originalmente pequeno.
Vamos nos preocupar com o desempenho nas trilhas e deixar os
deslocamentos velozes para quem tem equipamento para isso. Para
quem não tem, o melhor é curtir o visual, o ronronar
suave dos velhos BF-161, a companhia dos amigos e o prazer de
estar num legítimo Jeep!
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