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O Gato e a Coelha
por Alvaro Melo

No universo jipeiro é bastante comum que seus 4x4 tenham nomes assim como, os grupos formados sejam por afinidades, para competições, ou quaisquer outros interesses acabam também sendo batizados. Foi assim, que depois de burro velho tornei-me um Gato Cansado.

A maioria dos grupos adota nomes que evocam a prática do 4x4 ou agressivos, como sugerem suas viaturas e infelizmente, às vezes, suas atitudes. Nossa turma é da paz. Somos uma maioria de coroas e não nos contentamos mais com a trilha pela trilha. Gostamos de trilha com objetivo, ou seja, chegar a algum lugar, ver alguma coisa e etc, nessa linha. Naturalmente vocês já adivinharam que esse nosso grupo se chama "Gato Cansado"...

Nosso lema é que nossas trilhas/passeios/excursões devem sempre sair de uma cama e voltar para essa ou outra cama ao fim das atividades do dia que devem contemplar um horário, antes da segunda cama, para tomarmos um vinho (eventualmente sob muito calor, cerveja...) e podermos contar nossas mentiras e bravatas.

Essa prática tem permitido a celebração da paz com nossas companheiras, que na nossa época de jipeiros indômitos sofriam com o abandono que as trilhas radicais trazem como efeito colateral e agora, mesmo passando por alguns momentos assustadores (mera falta de prática/experiência) elas nos acompanham e curtem essa celebração com a natureza, com as máquinas e também com o conforto de uma boa pousada, restaurante, aquilo tudo!

Estamos parados há bastante tempo por motivos diversos, mas nos cobramos freqüentemente sobre a volta de nossas programações off-road e especialmente aquele convívio tão gostoso que faz parte das atividades e sem o que nada teria muita graça.

Infelizmente, por uma questão financeira, acabei me desfazendo da frota 4x4, uma Hilux SR-5 cabine dupla e um Engesa diesel conhecido como Curto&Grosso, valente companheiro de três anos que acabou sacrificado em prol do sonho maior que é a casa nova! A Hilux já estava fadada ao sacrifício, dada a condição de carro mais caro, visado para roubo, furto e assalto, condição que eleva barbaramente o valor do seguro que não tive condição de fazer, tendo que me contentar com um rastreador/imobilizador que nunca conseguiu anular por completo a neura da insegurança.

Depois de uns 20 anos de prática do fora de estrada vi minha garagem desprovida de um 4x4. Logo eu que já cheguei a ter quatro simultaneamente e mais de uma vez! A sensação é de nudez automotiva. Quem sabe o que um 4x4 faz a mais que um 4x2 sabe do que estou falando. A certeza que a conclusão das obras estaria assegurada, não foi capaz de aplacar aqueles outros pensamentos e dúvidas que não podem calar, incluindo o que fazer enquanto Gato Cansado! Como participar?

Depois de uns 20 dias nessa situação inusitada, eis que na Semana Santa, em plena Sexta Feira Santa, estávamos cuidando da vida em Paty do Alferes, pequena cidade serrana do Rio de Janeiro onde temos casa, vi num estacionamento próximo ao centro uma picape Ford F-75 4x4 que me pareceu bastante "inteira". Como sei também que o pessoal do estacionamento costuma negociar com carros usados fiquei nervoso. Porque? Por que o estacionamento devido ao feriado estava fechado...

Sábado de Aleluia, depois de uma noite consumida parcialmente fazendo contas para avaliar se o montante obtido pela venda da Hilux e do Engesa poderia ceder uma fatia onde coubesse a picape, cheguei cedo ao estacionamento e uma hora depois a F-75 era minha, ou quase - um sinal de 50% do valor pedido me dava essa convicção.

A picape é antiga (1981) mas está pouco rodada e razoavelmente conservada. A caçamba sem protetores ostenta arranhões decorrentes de sua principal atividade anterior que era carregar latões de leite, mas o interior da cabine confirma a escassa quilometragem denunciada pelo hodômetro (37 mil km). Para um jipeiro que além disso é também apaixonado por antigomobilismo, o manual do proprietário e a Nota Fiscal atestando que a F-75 só teve um dono completaram a felicidade que alcancei ao fazer esse negócio.

Ao anunciar sua aquisição em plena Páscoa o júbilo dos amigos e seus comentários acabaram por fazer o batismo da nova aquisição: Coelhona! Ao comprá-la, acabei também matando dois coelhos (sem alusões específicas) na mesma cajadada. Precisava de uma picape para fazer as duas mudanças, já que vamos esvaziar duas casas para uma terceira e assim com o mesmo veículo retorno ao meu mundo do fora de estrada e ganho a caçamba generosa que certamente nos ajudará muito na próxima empreitada.

Algumas pessoas deverão pensar: e um carro tão velho vai resolver o problema? Vai aguentar o tranco? E o Alvaro, vai se satisfazer em "cair" de uma Hilux ou um Engesa para uma F-75? Antes que essas dúvidas possam atormentar as cabeças dos meus amigos-leitores esclareço: ela é uma grande solução! Primeiro porque mesmo pagando caro ela é barata. Sua manutenção é simples e barata. A ausência de artifícios modernos amplia sua simplicidade. Já tive outra F-75, além de alguns Jeeps CJ-5 com essa mesma mecânica e posso garantir que o custo de manutenção é tão baixo que acaba compensando a relativa voracidade de seu motor de 4 cilindros com 2,3 litros de capacidade cúbica.

Para um uso mais intenso ainda podemos pensar numa conversão para GNV, pois a caçamba ampla admite uns dois cilindros sobrepostos. Remotamente podemos pensar ainda num ar condicionado, pois qualquer um de pequena capacidade é suficiente para a pequena cabine sem sofistificação. Mas para já, a grande aspiração é colocar uma capota alta na caçamba, capaz de proteger nossos pertences e permitir o transporte da turma canina de forma ordenada e segura isentando-me do comentário que eles deixam cheiro dentro do carro...

Ao contrário do que a patuleia motorizada costuma pensar, para nós jipeiros, carro novo não tá com essa bola toda. Custa muito caro (qualquer 4x4), tem seguro caríssimo e acaba dando pena de "ralar". Tenho certeza que a maioria de nós, prefere um 4x4 velho desde que bom, a um carrinho novo. Na minha garagem há um Citroen Berlingo, com bancos de couro, som, rodas de liga e um maravilhoso ar condicionado. Gosto dele por sua utilidade e suas qualidades intrínsecas. Mas até vender o Engesa, era com ele (o Engesa) que eu andava para tudo que é lado. Questão de estilo talvez...

Por isso, não fiquem com pena de mim. Não caí. Voltei ao meu mundo e o que é mais importante: com um carro que curto. Se vai ficar muito ou pouco tempo comigo não posso dizer. Já tive mais de 100 carros (em meu nome) e todos que compro são sempre "para sempre". Como o futuro a Deus pertence, deixemos essa preocupação de lado com a certeza de que o casamento do Gato com a Coelha dará certo, pois como dizia Vinícius o amor é eterno enquanto dura!



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