• (3)
  • (10)
  • (3)
  • (3)
  • (3)
  • (3)
  • (47)
  • (5)
  • (4)
  • (14)
  • (3)
  • (3)
  • (2)
  • (4)
  • (3)
  • (3)
  • (4)
  • (19)

Anuncie também

Anuncie gratiutamente na mais completa seção de classificados off road da web brasileira

agosto 1, 1998

Uma aventura pela Estrada do Inferno

Na estréia desta seção Expedições, Minas Off-Road traz para seus leitores a história de uma viagem á folclórica Estrada do Inferno, grande ícone do off-road brasileiro, feita por um grupo de jipeiros de Porto Alegre-RS, a bordo de dois Lada Niva e um Toyota Bandeirante, durante a Semana Santa de 2000.

O relato apresentado a seguir é de autoria de Luciano Duarte, um dos participantes da Expedição. O formato “diário de bordo” e o jeito bem-humorado de Luciano contar as aventuras do grupo prende a atenção do leitor, fazendo com que ele “participe” da viagem. Confira!

A Estrada do Inferno, por Luciano Duarte:

Buenas, voltamos! Cá estamos todos sãos e salvos. Histórias mil para contar, fotos dezenas para mostrar e um sorriso aberto para lembrar…. Quem foi curtiu, quem ficou está se mordendo; mas como jipeiro é uma raça masoquista por natureza, não vou deixar de relatar os fatos!

Saímos quinta-feira de Porto Alegre, pontualmente às 22h15, praticamente no horário previsto, 20h30! Liderando o comboio, iam o Flávio, a Adriana, o Cleber e a namorada no, Niva branco; logo atrás iam o Rafael e a Renata com a Toyota Azul “Calcinha” e, fechando a fila, Luciano, Carol, Marcelo e Ronald no Niva bordô. Antes da saída da Tia Zefa, apareceu o Gustavo Heck (amigo do grupo), recitando palavras proféticas, com a segunda via da chave do Niva Galo Véio na mão: “Toma que tu vai precisar!” Não é que ele estava certo!…

Partimos para a primeira parada, no osto Ipiranga da Agronomia. Abastecimento, calibragem de pneus, um óleo aqui, uma água ali e finalmente, às 23 horas de quinta-feira, botamos a roda na estrada. A viagem até Mostardas foi tranqüila e sem incidentes, com muita chuva em alguns trechos, mostrando a diversão que teríamos pela frente. Chegamos por volta das 2 horas da madrugada no hotel Scheffer, em Mostardas. Demos “bom dia” para o dono e nos acomodamos para um merecido descanso antes de dar início aos trabalhos propriamente ditos. Acordamos cedo na Sexta-Feira Santa e, depois de um bom café, com muito sol e chuva alternados e ao mesmo tempo, abastecemos os veículos e saímos em direção à praia.

Com céu nublado e algumas chuviscadas, umas até bem fortes, avançamos pela orla até o farol de Mostardas. Parada estratégica para fotos, muitas fotos!!! Voltamos para a praia e seguimos por aí até um acesso à Lagoa do Peixe. Depois de nos informarmos devidamente sobre onde atravessar a mesma, seguimos até o local indicado pelos “nativos”. Passando por cima de uma lama rasa e “desalojando” dezenas de carangueijos, seguimos pela beira da lagoa, com água no para-lamas do Niva. Tudo certo e mais uma paradinha para fotos ilustrativas da aventura.

A partir da lagoa, seguimos por uma estradinha até o asfalto da BR 101, de onde iríamos para Tavares reabastecer novamente e partir finalmente para a Estrada do Inferno. No caminho, encontramos um aventureiro mais aventureiro do que nós: um ciclista nipoamericano que estava pedalando a dois anos, vindo do Canadá! É mole?!?! Detalhe importante: ele estava com o boné do Grêmio Football Porto Alegrense! Nota-se porque ele chegou até aqui.

Abastecidos “até os gurgumilhos”, saímos de Tavares e pegamos 10 Km de asfalto antes de começar a brincadeira. Nesse trecho, sabe-se lá por que, tem uns 200 metros de lama braba entre um asfalto e outro. Na passada, desatolamos uma Saveiro que estava “atascada” até a porta no barro preto. Nada que um tranquinho de Toyota não desse jeito. Logo em seguida, entramos na “nossa” lama e assim fomos: reduzidos, bloqueados e tracionados, desvendando os mistérios escondidos no caldeirão do inferno. A estrada estava completamente enlameada, com muita água, mas em nenhuma vez tivemos dificuldades em passar os obstáculos. Por volta das 13 horas, paramos para o almoço.

Montamos acampamento na beira da estrada, no bosque de pinheiros. Como a chuva era imprevisível, apesar do céu momentaneamente azul, estacamos uma lona entre os Niva e demos início aos trabalhos culinários. Depois de um estupendo almoço, recolhemos todos os apetrechos e seguimos viagem.

Logo em seguida, resolvemos deixar a Estrada do Inferno e seguir um trecho pela Lagoa dos Patos. Assim o fizemos, seguindo também sem muita dificuldade pela margem da Lagoa. Difícil mesmo foi achar uma saída para voltar para o “paraíso”. Depois de rodar por algumas fazendas e conversar em alguma língua estranha com os habitantes da região, seguimos as “precisas” indicações dos mesmos e achamos a estrada infernal onde encontrava-se a igreja Universal, como nos havia explicado nosso informante. Aleluia, irmãos!

Com um cheiro doce, de plástico queimando, seguimos nosso caminho, investigando as possibilidades do odor que insistia em nos acompanhar. Depois de horas de investigação minuciosa nos componentes elétricos do Niva bordô, nosso “atento ” Zequinha Ronald percebeu que a fumaça que atrapalhava sua visão e prejudicava sua respiração vinha da lâmpada do porta-malas, instalada ao seu lado. A lâmpada estava ligada e, como as demais peças do Niva, era superdimensionada para seu receptáculo, o que acabou derretendo o mesmo, além de queimar o casaco do Zequinha Marcelo, que encobria a lâmpada.

A noite já começava a cair e resolvemos acelerar o passo até Bojuru. Comigo na frente e com o Marcelo de navegador, tomamos atitude de rally e pisamos fundo. Voavamos pelos lamaçais, espalhando água por onde passávamos e deixando os passarinhos atônitos com nosso desempenho. Ao cair da tarde, chegamos em Bojuru. Tentamos o hotel da cidade e tivemos uma surpresa: estava lotado! Sem pouso, saímos em busca do CTG da cidade, onde nos informaram que poderíamos passar a noite. Mais uma das profecias de Pai Gustavo começava a tomar corpo: no CTG não encontramos niguém, nem os cavalos. Partimos então à procura do capataz, que morava “logo ali atrás”. Depois de várias tentativas das mais diversas formas de comunicação com os estranhos habitantes do possível lar do capataz, desistimos e voltamos, já na escuridão total, para os veículos. Esta etapa foi fácil, pois o arranque da Toyota havia “dado um tempo” e por isso o Rafael a deixou ligada, o que nos guiou sem vacilos até o comboio. Cabe dizer que tivemos que dar uma puxadinha na Toyota para a mesma ligar quando do ocorrido.

Mas a vingança da Toyota seria cruel, depois de ter sido puxada em duas trilhas seguidas pelo destemido Niva Galo Véio! Sem muitas alternativas e já meio nervosos com a situação, seguimos o Rafael, que havia dado como alternativa seguir pela praia até um local propício para camping. Ledo engano. Bastou entrar na praia para sentirmos o perigo que corríamos. A areia estava completamente molhada, sendo muito difícil o avanço. Segunda reduzida em alto giro era a escolha e uma névoa impedindo a visão além de poucos metros mostra a situação em que nos encontrávamos. Logo em seguida nos deparamos com um rio cortando a praia. Eu e o Rafael, que fazíamos uma parede de luz para o Flávio, que estava sem faroletes, paramos. Quando descemos dos veículos para confabular, percebemos a roubada em que havíamos nos metido. Os pés afundavam na areia molhada, grudando “quiném” chiclete. Depois de trocar uma ou duas idéias absurdas do tipo “vamos tentar ir até o farol de Estreito e dormir lá”, decidimos sensatamemte voltar para a Bojuru, pegar a BR e acampar onde desse nesse trecho.

Demos a volta e encontramos os rastros da vinda. Com oito olhos bem abertos, eu, a Carol e meus dois zequinhas guiamos o comboio pelos “nossos trilhos” de ida. Achamos a saída da praia no breu total e voltamos para a estrada de acesso a Bojuru. No meio do caminho, com a ajuda de Deus, nos perdemos! Nos perdemos e achamos algumas árvores num campo limpo, perfeito para o acampamento. Sem pestanejar, fizemos um semi-círculo com as viaturas para barrar o vento e montamos acampamento. Barracas armadas, era hora da bóia. Uma massa coletiva com molho de queijo e presunto picado acalmou os nervos do pessoal e botou todo mundo para dormir o sono dos inocentes.

Novo dia, nova vida. Acordamos num lugar muito bonito, com cavalos, caturritas e quero-queros nos saudando. Café da manhã rápido e pé na estrada, ou melhor, roda na lama. Voltamos a Bojuru e reabastecemos. Na cidade, encontramos outro comboio que vinha de Mostardas pela estrada do Rincão. Com o tempo curto, resolvemos fazer este caminho para chegar ao farol de Cristóvão Pereira. E assim fomos, voltando pela lama da BR até Tavares e cruzando com tartarugas desavisadas na margem da estrada. Em Tavares, reabastecemos os veículos e nós. Recomendo a Pizzaria Azul, duas quadras depois do posto BR de Tavares, em direção a Mostardas. Comemos até dizer chega pois, embora o serviço no cardápio fosse a la carte, o serviço na mesa era de café colonial. Pagamos 5 Reais por pessoa e saímos rolando do lugar.

Pegamos então o caminho para o Rincão. Estradinha fácil, sem grandes problemas. Depois de chegar no Rincão, seguimos com novas informações para o Farol de Cristóvão Pereira. Depois de algumas quebradas erradas aqui e acolá, nos perdemos num bosque de pinheiros já próximo à lagoa, onde achamos um emissário dos céus em céu cavalo cinza. Nos apontando o caminho e perguntando se nossos carros “puxavam nas 4”, o gaúcho caborteiro seguiu sua cavalgada. Os jipeiros caborteiros seguiram as instruções e avistaram a lagoa e, logo em seguida, o tão esperado Farol.

O sol começava a deitar no horizonte e tocamos em frente. Eu ia na frente, desbravando o caminho e, desavisadamente, caí num fundão numa das entradas na lagoa. O capô não chegou a submergir, mas os danos viriam a seguir. Chamado, pelo rádio, pelo Flávio, paramos para uma completada de fluido de freio no Niva branco, que vinha com a luz acesa no painel a algum tempo. Quando fomos avançar, o Niva bordô não ligou mais, apresentando vários sintomas de “banho frio”. Tive aparentemente um curto circuito, pois ao dar o arranque, o alarme ligava. Ao tirar o fusível do alarme, nada acontecia com o arranque, pois não havia mais bateria. Uma puxadinha e o Niva pegou; continuamos então até o farol, onde uma deslumbrante paisagem nos aguardava. Fotos, banho para os mais “guasca”: Luciano, Carol, Rafael e Renata.

Problemas! O Niva agora não pegava mais nem no tranco. Reboque de Niva branco até o local do acampamento e era isso por hoje. Amanhã vemos! Montamos as barracas e preparamos a janta, com direito a fogueira, estrelas cadentes, conversa sobre satélites artificiais e por aí afora.

Domingo de manhã. Páscoa! O coelhinho deve ter ficado atolado no caminho, pois além de não ganhar ovinhos, o Niva não quis funcionar. Solução: reboque de Toyota, “a vingança”. Nesta parte, a profecia 1 de Pai Gustavo se concretizava: a chave da ignição do Niva quebrou! Se não tivesse a reserva…. Saímos do farol por volta de 10 da manhã, em direção a Mostardas. O Niva branco na frente, a Toyota logo em seguida e eu muito próximo da Toyota! No meio do caminho, tentativa de fazer um cambão com tronco de pinheiro, devido aos trancos da Toyota. Cambão feito, seguimos. Andamos 50 metros e, na primeira entrada na lagoa, a corda que amarrava o tronco no Niva correu e lá se foi nosso trabalho. Tinha até ficado bonitinho! Decimos trocar um dos dois cabos de aço que estávamos usando antes para o reboque pela corda do Rafael. Sendo mais elástica, os trancos ficaram mais amenos, diminuindo o sofrimento do piloto do Niva Galo Véio, que estava com o coração na mão.

Tudo corria bem com o reboque até que um tronco apareceu na frente da Toyota que, já conhecendo estes obstáculos literalmente de outros Carnavais, passou incólume pelo mesmo, deixando-o para o indefeso Niva. Bem feito, tomou um trancão! O Niva “estaqueou” na mesma hora quando viu o tronco. Descemos e começamos a cavar para desenterrar o “gravetinho” de 1,5 m de comprimento e 25 cm de diâmetro, que insistia em segurar o Niva pela balança da suspensão dianteira. Retirado o tronco, alguns tranquinhos para desatolar e vamos embora.

Chegamos em Mostardas às 14 horas. Acordamos um eletricista, gentilmente indicado por um jipeiro local (eles estão com um jipe clube novo lá e nos passaram o telefone para contato). Defeitos independentes e concomitantes no alternador e na ignição eletrônica detectados, deixamos a bateria carregando, fomos almoçar, passar uma água no chassis e calibrar os pneus. Com o Nivão funcionando de novo, seguimos nosso caminho de volta para Porto Alegre. Chegamos, sem mais incidentes, às 19 horas, cansados, sujos e felizes. Mais uma vez, cumprimos nosso objetivo. Todos que foram, voltaram. Quem ficou com inveja: semana que vem tem mais!

Agradecimento especial ao Rafael e ao Flávio, pelo reboque e pelo companheirismo.

Comentários